| |
O início
A propaganda do Século XX no Brasil mostra as diferentes épocas vividas no país, acompanhando comportamentos sociais, políticos e econômicos.
Os remédios
No caso dos medicamentos, por exemplo, ainda no século XIX, os primeiros anúncios eram pouco mais que os conhecidos classificados, onde só há palavras, como o “Soccorro da Mocidade", precioso desinfectante preparado pelo distincto doutor Lafayette Bueno, que teve a propriedade de terminar com as vaccinas syphiliticas” – segundo gloriosamente anunciava, ao final de 1882, no “Corsário”, do Rio de Janeiro.
Logo depois começaram a ganhar ilustrações, como a "L’Excelsior, nova pharmacia de algibeira"publicado no Diário Popular em 1884 (SP) – primeiro estojo de pronto-socorro anunciado, cujo preço tinha sido “reduzido a 6 mil réis. Admiravelmente composta para o primeiro auxílio, antes da chegada do médico, e sobre tudo para todos que moram fóra da cidade”.
Cura-tudo
Os remédios prometiam o que imaginava a cabeça dos seus fabricantes como o "Óleo de São Jacob", que mostrava a figura do próprio santo brandindo um frasco do “Grande Remédio Allemão, para curar com promptidão o reumathismo, nevralgia, gota, sciatica e dor nas costas, queimaduras, inchações, dores da garganta, de cabeça, dentes e ouvidos, e também deslocações e contusões e toda espécie de dores e pontadas”.
Art Nouveau / Art Déco
Já no início do século a propaganda, com um requintado tratamento de vinhetas e adornos de leiaute, iniciava uma longa trajetória de refletir o estilo art nouveau importado da Europa que invadia a arquitetura e as artes, como a do "Perfume Exquisito Divinia" - revista Fon Fon (RJ), 1911 - e o da "Casa Michel", ou ainda num bem trabalhado exemplo de art déco, o do "Xarope Bromil", publicado na revista A Lua, de 1910.
Texto Poético
Se as ilustrações passaram a ser melhor trabalhadas, os textos não ficavam pra trás. São desta época os anúncios com estrofes poéticas como a da Lindacutis, também chamado “O Thesouro da Belleza”, da Casa Granado (RJ), que anunciava; “Moça bonita que a belleza estima / E minha prima que a belleza aspira / P’ra amaciar e conservar a cutis / Por Lindacutis cada qual suspira” e mostrando que produto unisex não é coisa nova, exortava: “Barbeiro fino que freguezes quer, / E homem qualquer a quem navalha cale, / Se bem conhecem quanto vale a cutis / É Lindacutis sempre o que lhes vale”.
Os anúncios da Coty a partir dos anos 20 identificaram-se bastante com o sentimento e o traço realistas, com suas figuras sóbrias, introspectivas. Um bom exemplo é este de 1929 publicado em página dupla de O Cruzeiro, em que ao lado do enigmático olhar de uma musa segue o poema:
“Nos jardins dos perfumes de Coty, colhei a flôr do seu enlevo.
discreta, sentimental, amorosa, sensual...
para cada uma a suave
sensação da primavera florida
num paraíso de cristal.
La rose Jacqueminot,
Le Muguet, Le Ciclamen,
Le Jasmin de Corse, La Violete Purpre, Le Lilas
Pourpre, Le Lilas Blanc, La Violette Heliotrope,
L’Oillet France, Iris.”
Humor
A arte da propaganda com seu poder de persuasão e de influencia na mudança de opiniões e comportamentos, já no início do século vinte, mostrava que era uma atividade com a qual a sociedade passaria a conviver e a gostar. O humor esteve presente já no início, mostrando que uma abordagem leve pode ser mais eficiente. Um mosqueteiro, por exemplo, magro como um penitente, era um gaiato garoto-propaganda do Elixir Mastruço, de 1912.
O encanto da mulher
A constante e cada vez melhor trabalhada figura feminina como as dos anúncios do Rouge Lady ou do perfume L’Aimant de Coty assim como em tantos outros artigos de toucador como pós-de-arroz, cremes, tinturas, talcos, produtos íntimos, sabonetes e dentifrícios, já faziam sentir as atenções que a indústria de higiene e cosméticos, e por extensão a propaganda, davam à mulher.
O colo nú
Cada época tem o seu fetiche. A julgar por muitos anúncios da época, para a mulher das primeiras décadas do século passado “aformosear os seios” era uma das suas preocupações. Antes mesmo do final da Primeira Guerra, a colombina desenhada por K.Listo, com um lápis mais que apimentado, no anúncio do Lança-Perfume Alice e a Pasta Russa, do Dr. Ricabal, já mostravam que o Século Vinte viria para romper tabus. E a propaganda refletia as mudanças desse comportamento.
A fase “E o Vento Levou....”
Na primeira metade do século, a propaganda já mostrava sua forte atividade e parceria com o cinema para conquistar corações, bilheterias e consumidores. Um romance arrebatador como o que viveram Scarlett O’Hara e Rhett Butler, protagonizados por Vivian Leigh e Clark Gable em “O Vento Levou...”, de 1939, ganhador de 7 Oscars incluindo o de melhor filme, deu forte impulso à série. Filmes como este impressionavam tanto o mercado que, por longos anos, raros foram os anúncios de sabonete que não contavam com a figura idílica de um casal de namorados em meio a rosas e jasmins. São desta época os do Cashmere Bouquet e do Royal Briar.
Inserção na Política
O tema mais presente nas páginas dos jornais e revistas não poderia passar despercebido pelos criadores das agências. Benito Mussolini foi tomado como garoto-propaganda num anúncio em que aparecia com o braço direito estendido para o alto, à direita, no famoso gesto fachista, e as palavras de ordem: “-Si avanço, sigam-me / - Si recuo, matem-me / - Si tombo, vinguem-me / - Si o sangue tornar-se impuro, Galegonal” . No Brasil, Alvarenga e Ranchinho faziam paródias como “Ademar, Ademar, é miór i não faz mar”, em paródia ao reclame do antiácido Melhoral.
Testemunhais
Essa história dos anúncios em que uma pessoa famosa indica um produto, com o fim de passar seu prestígio ao produto indicado, já era um recurso bastante usado. Veja os testemunhos de um famoso médico baiano - dr. Januário Costa -, em favor da Emulsão de Scott, em anúncio da revista Fon-Fon, de 1910, e do consagrado ator Leopoldo Fróes, dizendo-se curado pelo Xarope Bromil, em 1918.
Naturalmente que, mesmo desejando limitar-se do período que vai do início do século até meados dos anos 60, essa pequena história da propaganda não pode ser tão resumida. Este capítulo ganhará mais alguns parágrafos.
|